domingo, 15 de maio de 2016

UMA FUGA COM PULGA ATRÁS DA ORELHA...

A notícia que reproduzo abaixo não é das mais interessantes literáriamente falando, até porque ainda não havemos chegado, em 1836, à fase em que escritores/jornalistas dão uso às armas da figura de estilo e vocabulário pomposo, para a construção das suas notícias. Ainda assim não deixa de ser caricata e ficamos com a pulga atrás da orelha quanto àquele sentinela... Mas o melhor é ler:

Porto 29 de Agosto - (ortografia actualizada)
Na noite passada fugiram da Cadeia da Relação três mulheres que ali estavam presas: consta-nos que elas, a pretexto de doença, tinham passado da prisão destinada para o seu sexo para a enfermaria das mulheres, que nos dizem ser uma prisão menos segura: cortaram alguns ferros das janelas que deitam para a rua, e desceram por uma corda, apesar da grande altura! Parece incrível que mulheres que estavam doentes, se atrevessem a praticar um ato daqueles: cortar ferros, e descer por uma corda: e o mais notável é que a sentinela que estava naquele sítio também desapareceu, deixando a arma, a jaqueta e o bonet.
Em pouco tempo é segunda fuga de presos daquela prisão, de onde antigamente se passavam anos sem que houvesse um caso daqueles: não sabemos de quem será a culpa.

Provavelmente, a culpa morreu incógnita...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

COMO SE FAZEM MILAGRES

A senhora Joanna Rammuado foi uma rapariga de truz no seu tempo, que foi desde 1836 até 1850. Quando ella passava não havia rapaz da sua egualha, e mesmo figurão que não lhe dirigisse requebros; mas ella sem deixar de ser Eva, deitar um olhar assasino, mostrar uns dentes, que não reclamavam os soccorros de Mr. Pimac, n'um sorriso, não alojava no coração mais do que o amor que lhe inspirara em Vulcano da visinhança. Nisto não se parecia com Venus. Quando o snr. Pedro Ilharco deitou um capote novo, em 1835, fez-se na egreja de Cedofeita a permeira leitura dos banhos, e pouco depois, quando elle comprou um chapeo fino, aguçado, deu-lhe a mão de esposo. A snr.ª Joanna e o seu Pedro viveram felizes os primeiros annos do matrimonio cousa documentada pela conta da taberna, onde em solteiro jogava o clunquilho e a bola e por um par de rapazes muito enlambusados, que se arrepelavam, em prova da amisade fraternal, á porte de casa.

Insensivelmente depois o snr. Pedro começou a frequentar, ao domingos, a tasca, a trazer á semana uma cara tão enfarruscada, que o assemelhava a um papua. A snr.ª Joanna, pela sua parte, começar a andar desgrenhada, como uma dama em final de tragedia.

O thermometro do amor regula-se por estas e outras cousas.

Passados tempos, ha mezes, o snr. Pedro vio uma visinha, esqueceu-se do penultimo dos mandamentos, e começou a arrastar-lhe a aza. Á snr.ª Joanna ia ás nuvens e curtia ferros, que seu marido não fora capaz de amoldar na forja. Depois de todos os ralhos e choros, a boa da mulher foi consultar a uma celebre Lenormand, que vive na Carvalhosa.

A bruxa fez cabriolas dos meus peccados; disse rezas, e acabou com uma prescripção, muito classica do tempo de Augusto.

Devia hir por horas mortas em noute de lua cheia a snr.ª Joanna ao campo, colher umas hervas, dizer uma lenga lenga, um Ducite ab urbe domo, em geringonça, e depois fazer em casa uns cosinhados, e uns defumadoiros e outras cerimonias, que lhe haviam de tornar a trazer o affecto perdido.

A difficuldade estava em sahir de casa á hora prescripta. A' primeira tentativa que fez o snr. Pedro acordou e poz-se a malucar no extremunhado da mulher; fez segunda, e a desconfinaça a trazer-lhe ideas de fazer arder o cabello; outra mais, e eis o homem com a pedra no sapato a espiar a esposa, e por conseguinte a deixar os companheiros da tasca e a mulher do proximo.

A desconfiança trouxe os zelos e os zelos fizeram-lhe notar que a snr.ª Joanna valia bem uma nova conquista ou ainda mais

Uma noute, nas ultimas de luar, o homem cançado de espiar a sua aquella, adormeceu, e quando accordou, bem tarde, não a vu no leito conjugal. Em fralda de camisa o Othelo da forja não agarrou no travesseiro, mas em um cerquinho, e correu para a cosinha, onde ouvia rumor e encontrou a esposa na operação mysteriosa da evocação do perdido amor. O homem suspendeu as iras, e deu lhe um abraço, pelo alivio que sentia no coração.

A snr.ª Joanna jura que foi o feitiço da mulher da Carvalhosa que fez o milagre da reconciliação, e não ha que tirar-lhe isso da cabeça.

Das imposturas da bruxa, porem, nem todas teem este resultado satisfactorio.

De O Clamor Publico de 3 Outubro de 1856

domingo, 19 de janeiro de 2014

SOCCO ECLESISTICO

Mais uma "notícia" retirada do Clamor Público. Este jornal de vida breve nota-se ter tido intervenção da mãos literárias...

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Foram remettidos hontem para a policia dous reverendos por desordeiros. Rixas velhas os traziam de maus humores, e a explosão rebentou por uma questão de grammatica latina, expraiando-se em murro e toutiçada bravia de fazer ver as estrellas posto que fosse o caso pelas 4 horas da tarde do dia 13.

Um dos padres, forte na lingua de qui-quae, quod, sentiu arrepiar-se-lhe o cabello em volta da tonsura ao ouvir ao outro uma entiada de barbarismos em um baptisado, e muito mais porque de ha muito este declinava mal o substantivo pecunia, pondo-o sempre em genitivo de possessão, quando elle o queria em dativo porque sentia o vacuo nas algibeiras sempre.

Os vocativos que empregaram antes de virem á unha não são para aqui, que não queremos affazer os leitores á ladainha regateiral, e que venha por ahi capitulo accusativo contra a inconveniencia do noticiario. O que podemos asseverar è que haveria interdito hoje na egreja de Campanhã se não accudisse gente, o que fez por em abblativo os dous ecclesiasticos com tenções de ajustarem contas em melhor occasião. A justiça, porém, é que lh'as vai tomar. Bom é que o exemplo escarmente os puristas; que, se vão pegar ao soco todas as vezes que ouvem barbarismos e solecismos na lingoa do Lacio, o murro torna-se tão vulgar na egreja, como os padres-nossos.
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O Clamor Publico, 15 de Outubro de 1856

domingo, 5 de janeiro de 2014

TENTOU EVADIR-SE...

Tentou evadir-se da cadea d'esta cidade, a snr.ª Emilia Guilhermina Lopes que tinha sido julgada na audiencia de 6 do corrente, como falsificadora de notas, sendo condemnada a 6 annos de cadea, como em tempo competente dissemos aos leitores.
    Passou-se assim o caso, na quarta feira de manhã.
    A sr.ª D. Emilia, disse ao carcereiro que tinha uma roupa para mandar para as Devesas [ao tempo o comboio terminava aqui], devendo ir no caminho de ferro para Lisboa, e que já tinha ajustado com um galego de lh'a levar áquelle ponto, n'um cesto.
    Não havia cousa mais natural do que isto, e por conseguinte o carcereiro respondeu-lhe que podia mandar a roupa que quizesse e para onde bem lhe parecesse. Nem a resposta d'elle podia ser outra, porque a sr.ª D. Emilia não lhe disse que dentro da roupa iria a sua excellentissima pessoa.
    Tudo até aqui correu ás mil maravilhas, e supponha o leitor, que a sr.ª D. Emilia ficou saltando de contente, e dando-se interiormente os parabens pela sua bem succedida esperteza.
    Mas; oh caso horrendo e feio! não se lembrou a sr.ª D. Emilia quão triste é a sorte dos homens de genio, dos pensadores e dos bemfeitores da humanidade. Não lhe vieram á ideia os nomes de Galileu, Socrates e quejandos.
    Deitou-se a dormir muito descançada sobre os louros da victoria que se lhe antolhava ganha, e não pensou no tremendo castigo que a sorte lhe reservava, por ter tido a petulancia de descobrir um segredo, que tem permanecido encuberto para muitos homens de barba na cara, quanto mais para uma mulher, que é um ente fraco, como se sabe!
    Proseguindo a historia, a canastra de que fallava a sr.ª D. Emilia, ia para dirigir-se ao seu destino, conduzida por um possante galego chamado José Garcia.
    Chegando porem o momento de sahir a porta, o guarda mandou fazer alto, na forma do costume, até vêr o contheudo.
    O contheudo, Deus amen! está o leitor adivinhando já que era a sr.ª D. Emilia, a mesma, a mesmissima!
    E' escusado dizer que a poseram em boa guarda, assim como o seu cumplice, que tinha justo com ella de a levar por 400 reis.
    Por onde se vê que a sr.ª D. Emilia soffreu uma cruel decepção na sua grande descoberta; mas em todo o caso é uma martyr da sciencia.

In Jornal de Noticias de 15 de Abril de 1865
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NOTA: Este não é o periódico que todos conhecemos e que ainda existe (fundado em 1888), mas sim um outro que existiu apenas em 1865 e que é antecessor do extinto O Primeiro de Janeiro.

domingo, 29 de dezembro de 2013

MORA AHI PARA OS LADOS...

Mora ahi para os lados da rua Chã um sapateiro, que é, na phrase do vulgo, mesmo o que se chama um larachista, quer dizer, um homem que conta muitos carapetões, que tem muito palavreado, que é o primeiro a rir-se d'aquillo que diz.

Ao pé d'elle mora um empregado publico, que é casado com uma delambida que faz versos á lua, e não sabe deitar uns fundilhos n'umas celouras [sic], nem apontar uns cotturnos, Ora, o pobre do empregado publico, cujo chefe vae para a repartição logo pela manhã, e quer que os empregados entrem infalivelmente ás 9 horas, tem muitas ocasiões em que quer ir para a repartição por serem horas, e não tem ainda almoçado, porque a cara metade está ainda deitada, sonhando com o sol e as estrellas. Acontece pois que o nosso homem sae sempre de casa com muito mau humor, porque se lembra que o chefe lhe dará algum sabonete se fôr mais tarde do que o costume.

O mesmo lhe acontece quando sae da repartição, porque então vae meditando o pobre do homem na grande tolice que faz um homem em casar com uma poetisa, que é cousa insuportavel, muito mais para um empregado publico.

Tanto á ida para a repartição como á vinda, passa elle pela porta do sapateiro, de que fallamos no principio do veridico facto que estamos narrando; e para ser perfeito o contraste, o sapateiro está sempre a rir-se quando o infeliz marido passa cabisbaixo.

Durava isto ha muito; mas um d'estes dias disse o bom do homem de si para si:
- Isto é comigo.
Não me bastam as afflições que tenho; ainda o meu visinho sapateiro escarnece de mim, rindo quando eu lhe passo pela porta! Mas deixa, que eu te ensinarei.

Foi direito ao regedor, e queixou-se do sapateiro. Este foi intimado e compareceram os dous contendores diante da authoridade, no dia seguinte.

O empregado publico formolou a sua accusação, dizendo que vivia muito apoquentado pelas causas que o leitor já sabe, e que de proposito para lhe causar ferro, e atormental-o mais, o seu visinho se ria d'elle.

- Ha-de pois dizer-me, exclamou elle com violencia e agarrando o sapateiro pela gola do casaco; hade dizer-me para que se ri quando eu passo em frente da sua loja!

- Sim, sim, respondeu o sapateiro no mesmo tom; hade você tamtém dizer-me porque passa em frente da minha loja, quando eu me riu!

- Muito bem, disse o regedor, dirigindo-se ao empregado publico; isso são apprehensões suas, e bem se vê que este homem não se ri de v. s.ª Mas, como elle diz, e diz muito bem, a questão é passar pela porta d'elle quando elle se ri. Ora, o remedio, é v. s.ª mudar de caminho quando vae para a sua repartição, e quando sae d'ella para se dirigir a casa.

Assim se fez. O empregado publico mudou de caminho, e o sapateiro continua a rir-se quando tem vontade.

In Jornal de Noticias de 27 de Junho de 1865
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NOTA: Este não é o periódico que todos conhecemos e que ainda existe (fundado em 1888), mas sim um outro que existiu apenas em 1865 e que está, em parte, na base do extinto O Primeiro de Janeiro.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

UMA TABERNA DO PORTO EM 1860

Na sequência do post sobre a rua dos Banhos que há dias publiquei no blogue "A Porta Nobre", coloco também aqui uma parte bastante truncada do segundo capítulo deste romance escrito por António A. Leal e publicado n' Archivo Popular, semanário da sua responsabilidade, nos já longínquos anos 70 de oitocentos.

Ainda no primeiro capítulo (este episódio passa-se no segundo), o autor adverte o leitor do seguinte: tomando para lugar da acção dos quatro primeiros capitulos d'este romance, que também se há-de desenvolver por palacios explendidos, uma das tabernas que ha vinte annos guarneciam a rua dos Banhos, posso phantasiar muito á minha vontade, descrevendo-a como muito bem me parecer, sem ter medo de que o leitor se me apresente deante de rosto iracundo, taxando-me de menos verdadeiro, o que n'um romancista seria imperdoável.

Contudo, e como não estou em crer que o autor se fosse afastar muito da realidade dos factos, e precisamente pelo seu pitoresco, transcrevo, como disse acima, a descrição da desta taberna, real ou fictícia, mas sem dúvida modelar daquele tipo de estabelecimento que abundava à época por aquela rua. Fiquemos então com as palavras de Leal.

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 Sabido que é n'uma das tabernas da rua dos Banhos que vou introduzir o leitor, pedindo-lhe préviamente perdão de o guiar por logares tão ordinarios e indecentes, o que é comtudo um dos previlegios dos romancistas, convinha fazer a descripção da morada da tia Malareca, nome da respeitavel matrona que empunhava o sceptro de rainha n'aquella especie de Côrte dos Milagres, de que o leitor deve estar lembrado se é que já leu os Mysterios de Paris.

Sempre direi que a taberna da tia Malareca era a mais immunda de todas as que frequentavam n'aquella epoca vadios e prostitutas da baixa, personagens tambem pouco decentes para abrirem um romance; mas, quanto a isto, é-me ainda facil invocar o testemunho dos meus já mencionados collegas Ponso du Terrail e Companhia[1].

Agora deixo ao leitor a liberdade de phantasiar na sua mente um typo de taberna, com todas as côres por mais repugnantes que lhe parecer, porque eu até lhe afianço que por muito negra, muito suja, muito repellente que a imagine, nada será exaggerado em comparação da taberna verdadeira, que já está dito que era negra e suja e repellente. Para completar o tetrico do quadro, falta dizer que a scena se passa de noute, e uma noute tenebrosa do inverno de 1860.

A taberna era composta de uma unica loja, dividida em duas, a primeira das quaes era a cosinha, e a segunda, separada por uns lotes carunchosos e encebados, no meio dos quaes se abria uma porta tapada com uma cortina de chita vermelha, em que se viam pintados passaros vermelhos, com bicos amarellos, de tamanho mais do que natural, phantasia naturalmente do pintor, essa parte da taberna tinha pretenções a sala de jantar. Era alli que se comia o que se preparava na sala de fóra e era tambem onde faziam explosão as alegrias filtradas no cerebro dos frequentadores pelo espumante licor extrahido das dornas por mão da bojuda tia Malareca, que era, como já dissemos, o nome de guerra da dona da locanda.

Este indespensavel apendice da loja era singelamente mobilado. Uma meza estreita e comprida, e bancos toscos á roda, eram toda a sua guarnição. Esta simplicidade tinha um fim: era deixar o campo livre para os dansadores, ou tocadores de banza.

Cá fora ia um temporal horrivel. Os relampagos crusavam os espaços celestes, acompanhados de estrondosos trovões. O vento assobiava por debaixo do arco da Porta Nobre e introduzia-se pelas tabernas adentro, com a maior semceremonia d'este mundo. A chuva cahia a torrentes e fazia uma enxurrada capaz de arrancar e levar deante de si as pedras das ruas.

No relógio da Sé acabavam de dar dez horas.

Á roda da meza comprida, de que fallamos, achavam-se sentados uns seis homens, só tres dos quais tinham barba. Os outros tres eram ainda rapazes. Estes regulariam de quinze a dezoito annos; aquelles de vinte e cinco a trinta. Os trajos eram pouco apurados; pobres, mas não esfarrapados. Em todos se observavam as faixas, desempenhando as funcções de suspensorios.

Quem eram estes homens? O seu modo de trajar, os rostos agaiatados, as faixas, os cigarros atraz da orelha, o copo na mão, a indespensavel banza empunhada por um d'elles, indicavam perfeitamente qual era a sua profissão.

Eram vadios. Aquella meia duzia de vadios eram os melhores freguezes da taberna.

Deante d'elles, sobre a mesa, ainda se viam os restos da ceia: peixe cosido, cebolas, pão e vinho, muito vinho. E eram estes os restos.

Um lampeão d'azeite de purgueira, suspenso do tecto, alumiava tenuamente a sala.

N'essa noute os convivas tinham dado ordem á tia Malareca para que não deixasse entrar mais ninguem no segundo compartimento da taberna, enquanto elles lá estivessem, o que se devia prolongar até muito depois de ser hora de fechar a porta. Effectivamente a porta fechou-se e a tia Malareca, assim como mais umas tres mulheres que se achavam na taberna, aninharam-se por traz das grandes pipas sobrepostas, pelas frestas das quais chegavam d'ahi a pouco os roncos que ellas expelliam, dormindo, aos ouvidos dos freguezes, que conversavam acaloradamente.
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1]- esta referência vem do capítulo 1, que contudo não aparece no meu post sobre a rua dos Banhos, n' "A Porta Nobre".

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

DOIS ECLIPSES

Para hontem á noite estava annunciado um outeiro e um eclipse: a lua não fez descortezia ao Borda d'Agua; as freiras de S. Bento deixaram por mentiroso o noticiador. Foram dous eclipses totais ao mesmo tempo. A nova abbadess, já nos constava, fez um protesto solemne contra a poesia, receiosa de que, envolta em algum soneto, fosse hervada frecha de Deus vendado varar o peito d'alguma das jovens seculares agasalhadas na casa do Senhor; mas quando annunciavamos a festa, tomava-mos o papel  do articulista do Times na questão de Napoles, e incitavamos o publico a ir com a sua presença no pateo, fazer o que dizem irá fazer a esquadra; obrigar aquelle soberano absoluto, cujo sceptro é o baculo, a dar mais liberdade as suas subditas; deixal-as vir á grade; que mortas por isso estavam ellas.

A pressão foi, porem, inefficaz; a abbadessa mais politica do que Fernando 2º deu-lhes uma festa, e em quanto os Manricos davam provas de que não eram bem cisnes, fugindo do pateo innundado por um aguaceiro, cantava-se lá dentro o miserere do Trovador.

Abstrahindo d'esta pequena contrariedade, as filhas espirituaes de S. Bento estão contentes com a abbadessa, e posto que antecipadamente se fallasse muito na candidatura d'esta e d'aquella, chagando-se mesmo a dizer, que uma estava em emminente risco de ser eleitora, sem para isso trabalhar, nem o saber e mesmo sem querer, votou tudo a carga cerrada, como se tambem lá por dentro houvesse chapeo magico e lista de chapa.

Deus lhe conceda vida larga para dirigir aquellas ovelhas recolhidas no aprisco do Senhor.

De O Clammor Publico de 14 de Outubro de 1856